
Climatério: o que muda no corpo e o que tem tratamento
Fogacho, sono ruim e mudança de humor têm explicação — e opções reais de tratamento
Imagem ilustrativa — fonte: acervo editorial do consultório. Não representa exame, diagnóstico, resultado clínico ou promessa de resultado.
O calor sobe do nada, no meio de uma reunião ou no meio da noite. O sono, que sempre foi fácil, vira um projeto. O humor oscila sem aviso. Para muitas mulheres, esse é o primeiro contato real com o climatério — e a sensação mais comum é a de que ninguém explicou direito o que está acontecendo, nem o que pode ser feito.
O que é, exatamente
A menopausa é um ponto fixo no tempo: o dia em que se completam 12 meses seguidos sem menstruar, sem outra causa que explique. No Brasil, a idade média é 48 anos. Tudo o que vem antes — o período de irregularidade menstrual, com ciclos que encurtam e os hormônios que oscilam — é a transição menopausal. O climatério, no sentido mais amplo, é essa fase de transição inteira, incluindo os anos seguintes à menopausa.
Quando a função dos ovários para antes dos 40 anos, chama-se insuficiência ovariana prematura; entre 40 e 45 anos, menopausa precoce. Em ambos os casos, o acompanhamento costuma ser mais atento, porque o corpo fica mais tempo exposto à falta de estrogênio.
Não é exagero, é muito comum
Cerca de 88 em cada 100 mulheres relatam algum sintoma do climatério, e os fogachos — aquela onda de calor súbita — aparecem em torno de 80 em cada 100. Apesar disso, apenas 22 em cada 100 mulheres recebem orientação médica sobre terapia hormonal. É um descompasso grande entre quem sofre com os sintomas e quem é de fato informada sobre as opções de tratamento.
Por que o corpo muda tanto
A queda progressiva do estrogênio produzido pelos ovários mexe com vários sistemas ao mesmo tempo. No cérebro, desregula o termostato interno — daí os fogachos e os suores noturnos. Na vagina e na bexiga, causa afinamento e ressecamento dos tecidos, o que pode trazer desconforto e infecções urinárias de repetição. Nos ossos, acelera a perda de massa óssea. E no metabolismo, favorece o acúmulo de gordura abdominal e a elevação do colesterol — o que eleva, a médio prazo, o risco cardiovascular.
A janela da terapia hormonal
Esse é o ponto mais mal compreendido do assunto. As sociedades de ginecologia, no Brasil e internacionalmente, convergem numa mesma ideia: para mulheres saudáveis, sintomáticas, que têm menos de 60 anos e estão a até 10 anos da menopausa, os benefícios da terapia hormonal tendem a superar os riscos.
Depois dessa janela, faltam dados de estudos controlados, e a decisão fica mais individualizada — a terapia não precisa ser suspensa de forma automática ao completar 60 anos, mas exige conversa franca sobre riscos e benefícios específicos de cada caso.
Contraindicam a terapia hormonal: câncer de mama ou outros cânceres sensíveis a hormônio, doença coronariana, trombose prévia e doença ativa do fígado.
O que os números de longo prazo mostram
Um estudo que acompanhou por quase 18 anos mais de 27 mil mulheres que participaram de um dos maiores ensaios sobre terapia hormonal já feitos trouxe um resultado tranquilizador: não houve diferença relevante na mortalidade geral, por causas cardiovasculares ou por câncer entre quem usou a terapia e quem não usou. Em mulheres de 50 a 59 anos, o grupo tratado teve até uma mortalidade geral um pouco menor — achado que os próprios autores tratam como exploratório, sem força para afirmar causa e efeito.
Sobre câncer de mama especificamente: o uso de curto prazo da combinação de estrogênio com progestogênio não mostrou aumento relevante de risco, e o estrogênio isolado pode até reduzir o risco em alguns cenários.
O climatério não é uma doença a ser escondida. É uma fase do corpo que tem explicação — e tratamento.
Opções sem hormônio
Para quem não pode ou não quer fazer terapia hormonal, existe hoje uma alternativa não hormonal aprovada no Brasil: o fezolinetanto, que age bloqueando um receptor específico no centro de controle de temperatura do cérebro, sem mexer com hormônios — uma opção inclusive para mulheres com histórico de câncer de mama ou contraindicação cardiovascular à terapia hormonal.
O que não tem respaldo
Implantes hormonais manipulados — os chamados "chips da beleza" ou "chips hormonais" — foram proibidos pela ANVISA em 2024, depois que dezenas de sociedades médicas relataram aumento expressivo de complicações, incluindo mais de 260 casos registrados em um único mês. O problema não é o hormônio em si, mas a forma: dose não controlada, aplicação sem regulação e ausência de estudos de segurança para esse formato.
Hormônios "bioidênticos" manipulados — fora do contexto de implante — também recebem ressalva das sociedades médicas: a produção tem pouca regulação, risco de erro de dosagem e falta de dados robustos de eficácia e segurança.
Este texto tem finalidade informativa e educativa. Não substitui consulta, não serve para diagnóstico e não deve ser usado para iniciar, suspender ou mudar tratamento por conta própria. A decisão sobre terapia hormonal depende de avaliação individual de risco com um médico.
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