
Enxaqueca não é dor de cabeça forte
É uma doença neurológica — e tem tratamento próprio, inclusive preventivo
Imagem ilustrativa — fonte: acervo editorial do consultório. Não representa exame, diagnóstico, resultado clínico ou promessa de resultado.
"Também tenho dor de cabeça e não faço esse drama." Quem tem enxaqueca já ouviu alguma versão dessa frase. Ela parte de um mal-entendido: a ideia de que enxaqueca é a mesma dor de cabeça dos outros, só que mais forte. Não é. É uma doença neurológica, com mecanismo próprio, critérios de diagnóstico definidos e tratamento específico — inclusive um tratamento para as crises virem menos.
Quantas pessoas têm
Um estudo brasileiro de base populacional encontrou enxaqueca em 15 de cada 100 pessoas no país. Entre mulheres, o número é mais que o dobro do observado entre homens.
Não é, portanto, uma queixa rara nem exagerada. É uma das condições que mais tiram pessoas do trabalho e da vida social — justamente na faixa de idade em que elas mais estão trabalhando e criando filhos.
A crise tem fases
Isso costuma ser novidade até para quem convive com enxaqueca há anos. A crise não começa quando a cabeça dói.
Nas horas ou no dia anterior, muita gente tem sinais de aviso: bocejo repetido, vontade de comer doce, irritação, dificuldade de concentração, rigidez no pescoço, sono ruim. Reconhecer esses sinais é útil, porque é a melhor hora de agir.
Algumas pessoas — não todas — têm aura antes da dor. São alterações que duram de 5 a 60 minutos: luzes ou linhas em zigue-zague na visão, pontos cegos, formigamento que sobe pelo braço, dificuldade momentânea para achar as palavras. Depois vem a fase de dor, que dura de algumas horas a até três dias. E, no fim, um período de cansaço e lentidão que muita gente chama de ressaca.
Gatilhos: o que sabemos e o que é mito
Gatilhos existem, mas a conversa sobre eles costuma sair do rumo. Os mais consistentes não são alimentos: são sono irregular, jejum prolongado, desidratação, estresse (e, curiosamente, o alívio depois dele), variações hormonais e mudanças bruscas de rotina.
Alimentos aparecem, mas variam muito de pessoa para pessoa — e há uma armadilha aqui. Na fase de aviso da crise, é comum dar vontade de comer doce ou chocolate. Muita gente come, a crise vem, e conclui que o chocolate causou. Em parte dos casos, a vontade de chocolate já era a crise começando.
Por isso a orientação não é proibir dezenas de alimentos. É observar o próprio padrão com um diário e cortar só o que se confirma. Lista longa de proibições piora a qualidade de vida sem reduzir crise.
Tratar a crise
A diretriz do American College of Physicians orienta começar com um medicamento só: um anti-inflamatório, paracetamol, ou um triptano — classe de remédios feita especificamente para a crise de enxaqueca.
Quando a resposta a um deles sozinho não é suficiente, a combinação de triptano com anti-inflamatório ou paracetamol é a estratégia com melhor resultado: mais pessoas ficaram sem dor por até 48 horas e menos precisaram de remédio de resgate em 24 horas.
Dois pontos práticos fazem muita diferença. O primeiro: tomar cedo, logo no início da crise, funciona melhor do que esperar. O segundo: quem precisa de remédio para dor mais de duas vezes por semana não tem um problema de crise — tem um problema de frequência, e precisa conversar sobre prevenção.
Tratar para vir menos
Esta é a parte que mais gente desconhece, e a que mais muda a vida. Existem remédios tomados todos os dias, fora da crise, cujo objetivo é reduzir quantas crises você tem por mês.
Como primeira opção, a mesma diretriz cita propranolol ou metoprolol, amitriptilina, venlafaxina ou valproato, usados um de cada vez. Para quem não tolera ou não responde, entram os medicamentos mais novos que agem sobre uma substância chamada CGRP — em comprimido ou em injeção mensal. Se ainda assim não funcionar, o topiramato é outra opção.
Uma advertência importante: valproato não deve ser usado por mulheres que podem engravidar, porque causa malformações no bebê. Se esse for o seu caso, pergunte explicitamente ao seu médico.
A prevenção exige paciência. O efeito aparece aos poucos, ao longo de semanas, e abandonar no primeiro mês é o motivo mais comum de "não funcionou".
A meta do tratamento preventivo não é zerar as crises. É reduzir o número e a força delas o suficiente para você retomar a sua rotina.
O remédio que faz a enxaqueca piorar
Quando a crise é frequente, a tentação é tomar analgésico sempre. E aí surge um problema conhecido: o uso muito frequente transforma a enxaqueca episódica em dor quase diária.
Os limites são 15 dias ou mais por mês para analgésicos simples e anti-inflamatórios, e 10 dias ou mais por mês para triptanos, opioides, derivados da ergotamina e remédios combinados — por mais de três meses. Se você está nessa situação, não interrompa nada sozinho: isso é tratável, mas precisa de um plano médico, com prevenção começando junto.
O que levar para a consulta
Um diário de três a quatro semanas responde quase tudo: quantos dias por mês você teve dor, quanto durou, o que veio junto, quantos dias você tomou remédio e se funcionou. Com esse papel na mão, a conversa sobre prevenção deixa de ser opinião e passa a ser decisão.
Este texto tem finalidade informativa e educativa. Não substitui consulta, não serve para diagnóstico e não deve ser usado para iniciar, suspender ou mudar tratamento por conta própria. Os medicamentos citados têm indicações, contraindicações e riscos que só podem ser avaliados individualmente por um médico. Dor de cabeça súbita e muito intensa, ou com febre, rigidez na nuca, confusão ou perda de força, é emergência.
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