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Homem com dor abdominal e representações anatômicas do intestino e do eixo intestino-cérebro
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Intestino irritável: a dor que vem da barriga e mexe com tudo

Exames normais, sintomas reais — e um diagnóstico que se faz pela história

6 minutosSaúde digestiva

Imagem ilustrativa — fonte: acervo editorial do consultório. Não representa exame, diagnóstico, resultado clínico ou promessa de resultado.

Dor na barriga que vem e vai. Dias de intestino preso, dias de intestino solto. Estufamento que aumenta ao longo do dia. E uma pilha de exames normais — endoscopia, colonoscopia, ultrassom, exames de sangue — com a mesma frase no fim: "não tem nada". Se essa é a sua história, ela tem nome, tem mecanismo conhecido e tem tratamento.

O diagnóstico é feito pelo que você conta

A síndrome do intestino irritável é diagnosticada por um conjunto de critérios baseados nos sintomas. O mais usado hoje exige dor abdominal em pelo menos um dia por semana nos últimos três meses, ligada a pelo menos duas destas situações: a dor tem relação com evacuar; mudou a frequência das evacuações; ou mudou a forma das fezes.

Um ponto que as diretrizes fazem questão de sublinhar: o diagnóstico deve ser positivo, feito pelos sintomas — e não por exclusão, depois de esgotar todos os exames possíveis. Isso está na principal diretriz americana com o grau máximo de recomendação. Em um estudo, a estratégia de diagnóstico positivo teve custo cerca de 40% menor e encurtou o tempo até o tratamento adequado.

Exame normal não é o diagnóstico que falhou. Na SII, exame normal faz parte da definição da doença.

Por que dói, se está tudo normal?

A SII é classificada hoje como um transtorno da interação entre o intestino e o cérebro. Os dois se comunicam o tempo todo, nos dois sentidos, e nessa condição essa comunicação está alterada.

Existe um achado experimental que explica bem. Quando se insufla um balão dentro do intestino de voluntários, pessoas com SII relatam dor com volumes que não incomodam as outras. Entre 20 e 60 de cada 100 pessoas com SII têm essa percepção aumentada. O intestino não está lesionado — está mais sensível. É o mesmo tipo de mecanismo que faz outras dores persistirem.

Some-se a isso alterações de movimento do intestino, mudanças na barreira intestinal e no processamento dos sinais no cérebro. Nada disso aparece em colonoscopia — e nada disso é imaginação.

Exames que precisam ser feitos — e os que não

Alguns exames simples são recomendados: hemograma, provas de inflamação e, quando há diarreia, a pesquisa de doença celíaca no sangue, porque ela aparece em cerca de 6 em cada 100 pessoas com esse padrão e tem tratamento próprio. Em quadros de diarreia, também se recomenda a calprotectina fecal, que ajuda a separar SII de doença inflamatória intestinal.

Por outro lado, há exames muito solicitados sem respaldo: colonoscopia de rotina em pessoas com menos de 45 anos sem sinais de alarme não é recomendada; teste respiratório de hidrogênio para supercrescimento bacteriano ou intolerância a carboidratos não tem papel no quadro típico; e testes de alergia alimentar não devem ser feitos em todos, apenas quando há suspeita real de alergia.

O que tem evidência no tratamento

Fibra solúvel. A do tipo psyllium melhora os sintomas de forma consistente e recebe recomendação forte. Começa-se com 3 a 4 gramas por dia e aumenta devagar. Importante: a fibra insolúvel, como o farelo de trigo, pode piorar os sintomas e não é recomendada.

Antidepressivo tricíclico em dose baixa. Esta é uma das evidências mais fortes da área, e costuma gerar confusão. A dose usada é bem menor que a de depressão — começa em 10 mg à noite, às vezes 5 mg. Ela não está sendo usada como antidepressivo: age reduzindo a sensibilidade do intestino e melhorando a dor. Recebe recomendação forte.

Terapias psicológicas. A maior análise já feita reuniu 67 estudos e mais de 7.400 pessoas. Tanto a terapia cognitivo-comportamental quanto a hipnoterapia dirigida ao intestino mostraram benefício sobre os sintomas. Os próprios autores registram que a confiança na evidência é baixa, por limitações dos estudos. Uma revisão Cochrane é mais cética ainda, apontando que o efeito pode não se sustentar depois do fim do tratamento.

Antiespasmódicos e óleo de hortelã-pimenta têm recomendação fraca e podem ajudar em situações específicas. O óleo de hortelã causa refluxo com alguma frequência.

Sobre a dieta FODMAP

É a dieta mais falada quando se trata de SII, e merece uma leitura cuidadosa.

Comparada a dietas controle, ela funciona. Mas quando foi comparada à orientação alimentar tradicional — comer em horários regulares, mastigar com calma, reduzir café e bebidas gasosas —, a diferença deixou de ser significativa. Ou seja: parte do benefício vem de organizar a alimentação, não de eliminar dezenas de alimentos.

E há riscos reais na restrição prolongada: redução de bactérias benéficas do intestino, deficiências nutricionais e desenvolvimento de padrões alimentares excessivamente restritivos. As diretrizes são claras — a fase de eliminação deve ser limitada, com supervisão de nutricionista, e os alimentos precisam ser reintroduzidos conforme a tolerância. FODMAP não é dieta para a vida toda.

Este texto tem finalidade informativa e educativa. Não substitui consulta, não serve para diagnóstico e não deve ser usado para iniciar, suspender ou mudar tratamento por conta própria. Dietas restritivas devem ser conduzidas com acompanhamento de nutricionista. Sangue nas fezes, perda de peso sem explicação ou anemia exigem avaliação médica.

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