Ir para o conteúdo
Mulher assoando o nariz, com representação anatômica da rinite e congestão nasal
Voltar ao blogSaúde respiratória

Nariz entupido o ano inteiro: é rinite?

Como diferenciar de resfriado e o que realmente controla os sintomas

6 minutosSaúde respiratória

Imagem ilustrativa — fonte: acervo editorial do consultório. Não representa exame, diagnóstico, resultado clínico ou promessa de resultado.

Acorda espirrando. O nariz escorre, entope, volta a escorrer. Coça o nariz, coçam os olhos, coça o céu da boca. Passa o dia respirando pela boca e dorme mal por causa disso. E não é resfriado, porque resfriado não dura o ano inteiro.

Rinite ou resfriado?

Três diferenças resolvem quase sempre.

A coceira. Alergia coça — nariz, olhos, garganta. Resfriado coça bem menos.

A febre. Rinite alérgica não causa febre. Se tem febre, é outra coisa.

A duração. Resfriado dura cerca de uma semana. Os sintomas alérgicos duram enquanto a pessoa estiver exposta ao que provoca a alergia — o que pode significar semanas seguidas, todo ano na mesma época, ou o ano inteiro.

A cor da secreção ajuda menos do que se imagina. Secreção sempre clara torna infecção improvável, mas secreção pode ser clara no começo de uma virose também.

É muito mais comum do que parece

Um estudo internacional que avaliou mais de 80 mil crianças e adolescentes brasileiros encontrou sintomas de rinite com conjuntivite em cerca de 13 de cada 100 crianças de 6 a 7 anos e 15 de cada 100 adolescentes de 13 a 14 anos.

E há uma conexão que muda o cuidado: até 80 em cada 100 pessoas com asma têm sintomas nasais, e até 40 em cada 100 pessoas com rinite têm asma. Em adolescentes brasileiros asmáticos, cerca de metade tinha rinite. Mais importante: rinite mal tratada ou não tratada em quem tem asma pode triplicar o risco de crise.

Ou seja: tratar o nariz não é vaidade. Em quem tem asma, é parte do tratamento do pulmão.

O tratamento que funciona melhor

Existe uma hierarquia clara, e ela contraria o hábito brasileiro de começar pelo comprimido.

O corticoide em spray nasal é superior ao antialérgico oral em todos os aspectos da rinite alérgica — é assim que a diretriz britânica registra, com o grau máximo de evidência. Em números: o spray reduz os sintomas cerca de 17% além do placebo; o comprimido, cerca de 7%. E o spray é especialmente eficaz para o sintoma que mais incomoda, o nariz entupido — justamente onde o comprimido rende menos.

Uma recomendação americana vai além e é contraintuitiva: para o tratamento inicial em pessoas a partir de 12 anos, os médicos devem prescrever o spray nasal sozinho, em vez da combinação com antialérgico oral. A combinação não se mostrou superior em nenhum desfecho medido. O spray também supera o montelucaste com folga.

Vale saber que o efeito não é imediato: o uso contínuo por pelo menos dois a três meses é o que costuma estabilizar o quadro.

Você provavelmente está usando o spray errado

Isso não é suposição. Um estudo observou 64 pacientes usando o spray e encontrou algo constrangedor: apenas 6 em cada 100 cumpriram todos os passos da bula, e apenas 11 em cada 100 fizeram os cinco passos essenciais.

Os erros mais comuns: inclinar a cabeça para trás (apenas 13% acertaram a posição — o correto é olhar para baixo); não assoar o nariz antes; apontar o bico para o meio do nariz em vez de para a parede lateral, o que causa sangramento; e fungar com força depois de aplicar, o que leva o remédio para a garganta em vez de deixá-lo onde deveria agir.

A instrução correta é simples: olhar para baixo, usar a mão direita para a narina esquerda e a esquerda para a direita — o que naturalmente aponta o bico para fora —, aplicar e não fungar.

Boa parte dos casos de "o spray não funciona comigo" é, na verdade, spray aplicado no lugar errado.

Sobre antialérgicos, lavagem e descongestionante

Antialérgicos antigos, de primeira geração, são desaconselhados pelas diretrizes. Eles atravessam facilmente a barreira do cérebro e causam sedação, queda de atenção, de memória e de desempenho — o que piora dirigir e trabalhar. Os de segunda geração devem sempre ser preferidos.

Lavagem nasal com soro. Uma revisão Cochrane com 14 estudos encontrou possível melhora dos sintomas, mas classificou a certeza da evidência como baixa ou muito baixa. É barata, bem tolerada e praticamente sem efeitos adversos — vale como medida de apoio, uma a duas vezes ao dia, não como tratamento principal.

Descongestionante nasal em spray é o maior perigo desta lista. Ele desentope na hora e, com uso continuado, provoca um efeito rebote: o nariz entope cada vez mais, e a pessoa fica dependente do spray. Os limites variam entre as fontes — de 3 a 7 dias —, o que significa que ninguém sabe exatamente onde está o risco, só que ele cresce rápido. A regra prática: poucos dias, com hora para acabar.

E a vacina para alergia?

A imunoterapia com alérgenos é o único tratamento que age na causa, e não apenas nos sintomas. As diretrizes brasileiras a indicam para pessoas com doença moderada a grave que continuam com sintomas apesar das medidas ambientais e dos medicamentos.

Os números: redução do escore de sintomas de cerca de 29% no primeiro ano, chegando a 45% no terceiro. Exige no mínimo três anos de tratamento, com benefício que persiste por pelo menos dois anos depois de terminado. Em crianças com rinite alérgica, também reduz o risco de desenvolver asma.

Este texto tem finalidade informativa e educativa. Não substitui consulta, não serve para diagnóstico e não deve ser usado para iniciar, suspender ou mudar tratamento por conta própria. Descongestionantes nasais em spray exigem orientação e prazo definido. Se você tem asma, não suspenda nem altere o tratamento do pulmão por conta própria.

Gostou deste conteúdo?