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Mulher acordada durante a noite ao lado do companheiro, com representação do ciclo do sono
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Quando o problema não é só dormir mal

Roncar alto, acordar cansado e não conseguir dormir são coisas diferentes

6 minutosSono e saúde

Imagem ilustrativa — fonte: acervo editorial do consultório. Não representa exame, diagnóstico, resultado clínico ou promessa de resultado.

"Eu durmo mal" é uma frase que esconde coisas muito diferentes. Tem quem não consiga pegar no sono. Tem quem durma oito horas e acorde como se não tivesse dormido. Tem quem ronque alto e pare de respirar sem saber. Tem quem sinta as pernas incomodando justo na hora de deitar. Os tratamentos são diferentes — por isso vale entender em qual grupo você está.

Os grandes grupos

A classificação internacional do sono organiza os problemas em seis grandes famílias: insônia; distúrbios respiratórios do sono, como a apneia; hipersonolências, como a narcolepsia; distúrbios do ritmo, quando o relógio do corpo está desajustado; parassonias, como sonambulismo e pesadelos; e distúrbios do movimento, como a síndrome das pernas inquietas.

Vamos aos três que mais aparecem no consultório.

Apneia do sono: o problema que quase ninguém sabe que tem

Na apneia obstrutiva, a garganta colapsa durante o sono e a respiração para por alguns segundos, muitas vezes por noite. A pessoa não acorda de fato — mas o sono se fragmenta. Daí o cansaço de quem dormiu a noite toda.

Um estudo populacional feito em São Paulo, com polissonografia em mais de mil voluntários, encontrou apneia em cerca de 33 de cada 100 adultos. E há um dado que explica por que isso passa batido: em pesquisa realizada com adultos empregados, 93% das mulheres e 82% dos homens com apneia moderada a grave nunca tinham recebido o diagnóstico.

Os fatores mais associados no estudo brasileiro foram obesidade, sexo masculino, idade acima de 60 anos e, nas mulheres, a menopausa.

Existem questionários que ajudam a levantar a suspeita. Um dos mais usados soma oito itens, e um resultado de três ou mais identifica 94 em cada 100 casos de apneia moderada a grave. Mas atenção ao outro lado: esse questionário aponta muitas pessoas que não têm o problema. Ele serve para não deixar passar, não para confirmar.

Por isso a recomendação mais forte da principal sociedade de medicina do sono é direta: questionário nenhum diagnostica apneia. O diagnóstico exige polissonografia ou exame de sono domiciliar adequado.

O que o tratamento da apneia entrega — com honestidade

O CPAP, aparelho que mantém a via aérea aberta durante o sono, melhora comprovadamente a sonolência diurna e a qualidade de vida.

Sobre prevenir infarto e derrame, é preciso ser franco. O maior estudo já feito, com 2.717 pessoas acompanhadas por quase quatro anos, não encontrou redução de eventos cardiovasculares com o CPAP. A adesão média foi baixa — 3,3 horas por noite —, o que limita a conclusão. O que dá para afirmar: o CPAP melhora como você se sente e funciona durante o dia; a proteção do coração não foi demonstrada nesse ensaio.

Pernas inquietas

É uma sensação desagradável nas pernas, com vontade incontrolável de mexê-las. Tem quatro marcas registradas: piora no repouso, melhora com o movimento, piora à noite e não é explicada por outra condição. Afeta de 2 a 3 em cada 100 adultos de forma clinicamente relevante, mais em mulheres.

Há um detalhe prático valioso: a condição tem relação com os estoques de ferro no corpo. As diretrizes orientam repor ferro quando a ferritina está igual ou abaixo de 75, mesmo sem anemia. É um exame simples de pedir.

Houve também uma mudança importante recente. Os remédios dopaminérgicos, que eram o tratamento padrão, deixaram de ser recomendados como primeira opção — porque, com o tempo, podem provocar piora paradoxal dos sintomas.

Quando pedir exame de sono

A polissonografia, feita em laboratório, é indicada quando há suspeita de apneia com doença do coração ou do pulmão associada, fraqueza muscular, uso crônico de opioides, histórico de derrame ou insônia grave. Também quando o exame domiciliar deu negativo ou inconclusivo, mas a suspeita continua.

E vale um aviso: a principal sociedade de medicina do sono publicou posição formal de que produtos à base de cannabis não devem ser usados para tratar apneia do sono, por evidência limitada e composição não padronizada.

Este texto tem finalidade informativa e educativa. Não substitui consulta, não serve para diagnóstico e não deve ser usado para iniciar, suspender ou mudar tratamento por conta própria. Sonolência ao volante é risco de vida: se isso acontece com você, procure avaliação antes de voltar a dirigir.

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